Singularidade
 

desobrigação

abro mão da obrigação
de ser feliz na sexta
à noite

de sair copo a copo
corpo a corpo
bar em bar

basta-me um pouco
de quietude de
silêncio

o balanço da cadeira
na penumbra da
varanda

( copo de vinho solo
de jazz quinteto de
mozart )

a noite azul qualquer
estrela alguma
lua

e a lembrança da tua
boca  das tuas mãos
como arrepio

em minha pele


Márcia Maia

imagem: Jack Vettrianno

 

 



Escrito por Jade Dantas às 10:58
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   O LADO BOM

Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar.

Quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...

Quero ser o lado bom
em que pensas,
isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...

Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...

J. G. de Araújo Jorge


Escrito por Jade Dantas às 14:03
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A MASSACRANTE FELICIDADE DOS OUTROS. 
 
Texto de Martha Medeiros gaúcha, 44 anos, Jornalista, poeta
 
Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma.
 
Estamos todos no mesmo barco. Há no ar um certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso?
 
Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia:
 
"Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento".
Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite.
 
É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são, ou aparentam ser.
 
Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.
As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias.
 
Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.
 
Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro,alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados.
 
Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores.
 
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".
Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta.
 
Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem.
 
Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores?
 
Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige?
Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa?
Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?
 
Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista.
As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento.
 


Escrito por Jade Dantas às 15:37
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MEMÓRIA 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

 Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Alex Krivtsov 

 



Escrito por Jade Dantas às 12:29
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NOITE ETERNA

As bocas eram encaixe perfeito. Poderiam passar o resto da vida
encantados. Poderiam retardar o nascimento do dia, esconder o Sol em alguma
caixa mágica, apagar o dia e ser eterna noite. Poderiam estabelecer uma
nova ordem mundial, prevalecer o amor sobre as guerras, prevalecer o amor
sobre qualquer violência. Poderiam apagar as luzes da cidade, deixar as
estrelas iluminando a escura noite. Poderiam ficar nus na Jabaquara ou em
Trindade, fazer amor dentro da noite eterna. Poderiam, mas não o fizeram,
partiram para rumos contrários. As noites se sucederam tão efêmeras como uma
flor do campo ou como a própria vida.

Flávio Machado

Imagem: Anne Brigmann

 

 

 



Escrito por Jade Dantas às 15:02
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para um possível livro infantil

tudo são coisas
palavras
substantivos
objetos

avião é coisa que voa
ave também é coisa que voa
peixe é coisa que nada
nada é coisa nenhuma
ausência de coisa

amor é coisa que dá frutos
frutos são coisas que apodrecem
tem coisa que é abstrata
tem coisa que é concreta

coisa inacabada
quase alguma coisa não transformada
poesia é coisa que transforma
imagens em outra coisa

poeta é coisa
construtor
criador
astro sem picadeiro
ator de toda coisa criada
habitante de possibilidades
poeta é coisa que transforma
o pó do pó ao pó.

Flávio Machado

Imagem: Luis Palma



Escrito por Jade Dantas às 11:43
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DEPOIS

©Jade Dantas

 

Depois de me aqueceres

no calor teu.

Depois

 

dos teus olhos

a me percorrerem doando

poemas a cada olhar,

 

dos teus dedos,

dos beijos. Da suavidade

das palavras, mergulhando

 

na pele, do tanto que ficou,

que me importa

a morte?



Escrito por Jade Dantas às 13:28
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Merece ser lido e aplaudido de pé:                 

LIÇÃO DE VIDA 

Rita Levi Montalcini - Prêmio Nobel de Medicina.


A Dra. Rita Levi, que tem 98 anos recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 21 anos, quando tinha 77 anos.
Rita Levi Montalcini, nasceu em Turín, Itália em 1909 e obteve o titulo de Medicina na especialidade de Neurocirurgia. Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália, um pouco antes do começo da II Guerra Mundial.


Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger, do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de San Louis. Seus trabalhos junto com Stanley Cohen serviram para descobrir que as células só começam a se reproduzir quando recebem a ordem para isso, ordem que é transmitida por umas substâncias chamadas fatores do crescimento.

 

Obteve o Prêmio Nobel de Fisiologia no ano 1986, que compartilhou com Stanley Cohen.

 

ENTREVISTA


- Como vai celebrar seus 100 anos?


- Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia!


- E o que você faz?


- Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem .

Elas e seus paises. E continuo investigando, continuo pensando.


- Não vai se aposentar?

 

- Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente se aposenta e se abandona... E isso mata seu cérebro. E adoece.


- E como está seu cérebro?


- Igual a quando eu tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.


- Mas terá algum limite genético ?


- Não. Meu cérebro vai ter um século..., mas não conhece a senilidade..O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!


- Como você faz isso?


- Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!


- Ajude-me a fazê-lo.

 - Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faça ele trabalhar e ele nunca se degenera .

- E viverei mais anos?


- Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.
A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....


- A sua foi a investigação cientifica?


- Sim e segue sendo.


- Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...


- Sim, em 1942 : dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade, e em 1986, me deram o prêmio por isso.


- Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?


- Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.


- Seu pai ficou magoado?


- Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa..Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...


- Vejo que isso foi um estimulo...


- Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem , isso era meu grande sonho...!


- E você o tem feito... com sua ciência.


- E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos paises islâmicos, por exemplo, além de outras coisas...!


- A religião freia o desenvolvimento cognitivo?


- A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.


- Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?


- Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não há diferença alguma.


- Por que ainda existem poucas cientistas?
- Não é assim! Muitos descobrimentos científicos, atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.


- É verdade?


- A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, há mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!


- A sábia Alexandrina do século IV...


- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado algo...


- Ninguém tem tentado assassinar a você...


- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição dos judeus..e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar : tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!


- Por que há uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?


- A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que há muitos judeus entre os prêmios Nobel...


- Como você explica a loucura nazista?


- Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!


- Isto está acontecendo agora?


- Por que você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?


- A ideologia é emoção, é sem razão?


- A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos : discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!


- Você nunca se casou ou teve filhos?


- Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!


- Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?


- Curar...O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
- Qual é hoje seu grande sonho?


- Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.


- Quando deixou de sentir se feia?


- Ainda estou consciente de minhas limitações!


- Que tem sido o melhor da sua vida?


- Ajudar aos demais.


- O que você faria hoje se tivesse 20 anos?


- Mas eu já estou fazendo!!!!



Escrito por Jade Dantas às 11:37
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CONTRAPONTO
 
Olhou para os cacos. Pensou se seria possivel moldá-lo novamente. Sim, mas só por outras mãos. E não seria o mesmo coração. Faltaria o sopro  a dar-lhe vida. E o toque dos dedos mágicos a despertar-lhe o desejo.
Alvaro Domingues
 
Imagem: Wayne Fortes
 
 


Escrito por Jade Dantas às 13:16
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A SOMA DAS PARTES

Álvaro A.L. Domingues


Lembrava-se do dia em que ela lhe dissera:

-- Sou toda sua.

E ele só quisera parte. A parte das noites de prazer intenso. Nunca saberia
o que seria o todo. Recebera hoje outra parte. O vazio de sua ausencia.

 

 



Escrito por Jade Dantas às 17:26
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RACIONALIDADE

©Jade Dantas

 

É tempo de ser racional, decidiu. O corpo responderá ao instinto. Nada de sofrer por amor, aliás, pra que amor?

Porém, livre e selvagem, a alma jamais obedeceu e pelas madrugadas conectava-se ao ser amado e acordava escrevendo poesia. O que seria da alma sem o socorro da fantasia? Desistiu.



Escrito por Jade Dantas às 13:08
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BAILAR PARA VOCÊ

Jade Dantas

Hoje desejo bailar para você.
Perder-me na melodia, incorporar
em mim a bailarina, calçar as sapatilhas,
prender o cabelo, me aquecer,
e permitir à música me envolver.

Ser beleza e luar para você,
ser estrela e som, etérea,
ser poesia, luz e fantasia
não mais mulher, uma brisa
fugidia, um poema somente eu quero ser.

Em pontas dos pés, ser suavidade,
com meu corpo dar asas ao seu sonho,
ser um vôo musical, o inalcançável,
me fundir à música que lhe enleva,
ser beleza a lhe fazer sonhar.

Afastar da mente a saudade, das veias
este pulsar, do coração o desejo de lhe amar,
da alma a sede do seu sorriso. Ser um pássaro,
uma melodia a se espalhar no ar.
Hoje, quero bailar para você.


Escrito por Jade Dantas às 13:13
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MEUS DEDOS

Muitas coisas pendem dos meus dedos:
consegui saber-lhes os segredos
e os seus gestos hoje morrem, vãos,
quando os não dirigem minhas mãos,
pelo acaso, como um palco aberto.
Minha vida é um teatro deserto.
Mas fatigam tanto estes brinquedos,
cenas sempre iguais e iguais enredos
- oh! como são tristes os meus dedos!

Geir Campos



Escrito por Jade Dantas às 13:42
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A geometria dos corpos



A menor distância
entre dois pontos
está na conjunção
de nossos corpos
que se atraem
na razão inversa
da razão e do verso.
Beija meus senos
percorre minha hipotenusa
para te perderes no triângulo
molhado sob minhas bermudas
e descobrir minhas incógnitas
me rasgando com teu cateto.
Encaixa teu cilindro
em meu cone que te precisa
e acha, usa e abusa,descobre o meu ponto G...
Encontra a quadratura do círculo
na curva de meus quadris.
Camila Sintra


Escrito por Jade Dantas às 13:51
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in_quieta

 

minha boca fala alma
e não cala
danada
entrega tudo

última gota
melhor vinho não há
do sangue que derramo
da vida que aborto
com teu veneno

e daí, também,
já que não tinha futuro
era só um amor
mais um
amor

como quem pede
em mesa de bar
da-me um vinho
e um amor

embrulha pra levar.

minha boca cala alma
num sorriso de paisagem
quando vejo tua miragem
e tudo que acreditei

cala alma boca quieta
de um sorriso que deitei

cala alma
cala
anda, cala
cala lembranças
falsas esperanças
cala momentos
passado(s) intensos

cala alma
mata
mata e cala

nem exala
dama da noite

lembra apenas
que solidão só existe
quando alguém não vem

cala e lembra
lembra e cala...

 

Marisa Figueiredo



Escrito por Jade Dantas às 15:25
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NÃO INSISTAS

Não me acordes
se de acordo já estou morta

Não me dispas
se de pedra já me visto

Não me beijes
se de bruços já me mordes

Não insistas
se de sono já desisto

Não detenhas o gesto
no sentido
onde abre o fato no corpo já despido

Maria Teresa Horta



Escrito por Jade Dantas às 16:04
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Amigos todos que aqui visitam. Perdoem a ausência. Foi devida a muitos fatores, entre eles o trabalho.

Espero voltar com mais assiduidade.

Um poema e meu abraço.
Jade


DESASSOSSEGO
©Jade Dantas

Há um pouco de mim
em cada espaço onde me perco,
depois renasço onde me acho.

Recrio-me, a cada dia, na leitura,
no ballet, na arquitetura. E me divido,
mais tarde, na poesia.

Pedaços  dos meus sonhos, deixei soltos
nas nuvens, ao saltar de pára-quedas
e tentar espelhar-me no mar.

Só nunca soube de onde veio
este desassossego que me impele
a sonhar, a cultivar palavras.

Tão efêmera é a canção
que espalho.



Escrito por Jade Dantas às 00:18
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MILÁGRIMAS

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa, coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas, viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal, do sal, do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem, mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Alice Ruiz

Imagem: Adri Berger

 

 



Escrito por Jade Dantas às 21:46
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PREAMAR


ontem a lua
bailou bêbada
sob as águas
do meu mar

pré amou
minha maré
onde amar é
preamar

Anderson H

 



Escrito por Jade Dantas às 22:08
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ORAÇÃO A MIM MESMO
Oswaldo Antônio Begiato


Que eu me permita
olhar e escutar e sonhar mais.
Falar menos.
Chorar menos.

Ver nos olhos de quem me vê
a admiração que eles me têm
e não a inveja que prepotentemente penso que têm.

Escutar com meus ouvidos atentos
e minha boca estática,
as palavras que se fazem gestos
e os gestos que se fazem palavras.

Permitir sempre
escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.

Saber realizar
os sonhos que nascem em mim
e por mim
e comigo morrem por eu não os saber sonhos.


Então, que eu possa viver
os sonhos possíveis
e os impossíveis;
aqueles que morrem
e ressuscitam
a cada novo fruto,
a cada nova flor,
a cada novo calor,
a cada nova geada,
a cada novo dia.

Que eu possa sonhar o ar,
sonhar o mar,
sonhar o amar,
sonhar o amalgamar.

Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos,
do impossível,
da imensidão de toda profundeza.

Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque,
pelo sentir,
pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras,

pela oração mental
(aquela que a alma cria e
que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).

Que eu saiba dimensionar o calor,
experimentar a forma,
vislumbrar as curvas,
desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância
que se mostra
nas pequenas manifestações
da vida.

Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza,
criando-me
e recriando-me a cada instante.

Que eu possa chorar menos de tristeza
e mais de contentamentos.

Que meu choro não seja em vão,
que em vão não sejam
minhas dúvidas.


Que eu saiba perder meus caminhos
mas saiba recuperar meus destinos
com dignidade.


Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
- Que eu não tenha medo de meus medos!


Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.

Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,

sábio dentro de meus limites
pequenos e inexatos,

humilde diante de minhas grandezas
tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas
e o quanto é valiosa
minha pequenez).

Que eu me permita ser mãe,
ser pai,
e, se for preciso,
ser órfão.

Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,

traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;

respeitar incondicionalmente
o ser;
o ser por si só,
por mais nada que possa ter alm de sua essência,

auxiliar a solidão de quem chegou,
render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.

Que eu possa amar
e ser amado.
Que eu possa amar mesmo sem ser amado,

fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo
gentilezas.

Que
eu jamais fique só,
mesmo quando
eu me queira só.

Amém.



Escrito por Jade Dantas às 21:50
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OITO ANOS

©Jade Dantas

 

Exatamente, há oito anos, mesmo sendo já esperado, vi-me obrigada, subitamente, a reinventar o mundo.

Nesse dia, faleceu a minha mãe.

Sofria, mas estava ausente da sua própria dor. Sofríamos nós, por ela.

Difícil era vê-la sofrer. Sentia-me preparada para o fato que a morte poria fim ao seu martírio.

Só que, ninguém havia me avisado do vazio que resta quando morre uma mãe.

Ninguém nos diz que, mesmo adultos, enquanto ela ali está, o mundo tem um sentido lógico e que ela, tão frágil, é a base dessa organização universal.

De repente, tive de reorganizar minha cabeça numa crise de identidade inesperada. 

É quando nos bate uma certeza: ninguém, nunca mais, nos olhará com tanto amor. Ninguém, nunca mais, nos amará como ela nos amou.

Hoje, fazem oito anos que ela se foi. Mudou o milênio, muita coisa mudou. Passou mais a tempestade interna porém nada, absolutamente nada, preencherá a ausência que deixou.

 



Escrito por Jade Dantas às 19:32
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Para Mim e Para Otto
Hélio Pelellegrino

"Preciso fundar em mim a disciplina da fidelidade. Preciso aprender a ser fiel a mim mesmo, às verdades que me são reveladas e que eu busco, num certo sentido, esquecer e malcurar, pois nenhuma tarefa é tão pesada como a de pastorear o ser das coisas que a nós se revela. Preciso aprender a trabalhar, com método calmo e transparente amor. A revelação, a iluminação, nada mais representam do que o bloco de pedra a partir do qual se há de arrancar a escultura. Preciso aprender a tornar-me o escultor cotidiano, aquele que acorda e dorme a sua obra, no desfiar dos dias que se sucedem, com paciência e silenciosa paixão. Preciso pesar menos e obrar mais. Preciso ser menos eruptivo e mais fluente. Preciso fluir, manar, desdobrar-me, descobrir-me, preciso permitir que as águas venham da rocha profunda. Pois só na medida que as águas surgem é que elas renovam. Do fluir decorre a fluência. (...) Estou certo de que só o criar alimenta e restaura a capacidade da criação. Não resta dúvida de que, às vezes, as coisas parece que nos são dadas por acréscimo, por superabundância, por graça. Mas estas coisas que nos são dadas de graça exigem de nós, depois, a paciente perseverança, o aturado e duradouro calor, capaz de transformarmo-nos nos guardiões da graça do ser que a nós se revelou. O preço da graça que recebemos é nos mantermos fiéis a ela, é nos tornarmos o porta-vozes dela, nos fazermos a voz dela, a linguagem dela. A graça quer aceder ao mundo através da nossa boca que fala. Fala boca, para que te possas, depois, calar com dignidade. Fala, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia. Fala."

[Lucidez Embriagada, 197 pgs, Ed. Planeta]



Escrito por Jade Dantas às 11:44
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MURMÚRIOS

©Jade Dantas

 

Insone na madrugada,

invento palavras

sem sentido.

 

Invento os sons,

os murmúrios.

A dança do amor.

 

Invento teus dedos,

o toque das tuas mãos,

invento teus beijos.

 

Invento os desejos

dos teus olhos macios

em meu corpo que palpita.

 

Reinvento a ti...



Escrito por Jade Dantas às 18:26
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A VOZ DO SILÊNCIO

Fernando Dantas 

 

"Encontrei um poema com apenas dois versos que diz assim:

"Pior do que uma voz que cala
- É um silêncio que fala"

Simples. Rápido. E quanta força.
Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades .

Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão.

O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar
com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamentos articulam argumentos expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos que não são compartilhados.

Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica, ouvimos um dos dois gritar:

"Diz alguma coisa! Diz que não me ama mais, mas não fica aí parado me olhando..."

É o silêncio de um, mandando más notícias para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha com uma britadeira na rua, o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche, o silêncio é um presente.

Para os seguranças dos shows do Sepultura, o silêncio é uma megasena.
Mesmo no amor, quando a relação é sólida e madura o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba é aquele que fala.

E fala alto!!!!

É quando ninguém bate a nossa porta, não há recados na secretária eletrônica e mesmo assim você entende a mensagem".



Escrito por Jade Dantas às 18:50
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          Mather Incorrigibile

 

É este estado intenso de gratidão e ternura.

De candura e silêncio. Esta fórmula simples

de quem se anula  - e é forte - quase sempre;

 

(metade de todo o mundo seria pleno, perfeito,

para teus filhos galgarem compassos seguros

nos destinos que escolhesses rumo às alturas).

 

Este jeito imenso, passos lentos, baixa estatura.

O modo de abrandar - meu espírito impulsivo -

quando vergo o verbo quente e aceso pelas ruas.

 

É que me tens pelas mãos; sabes me dizer não

desde a infância distante, as lembranças puras.

É esta fortuna que trago. Nunca sei como pago

 

ao Dono de tudo; ter frutas frescas no deserto: 

um bem cheio de mistérios...

                                        ...em mãe se configura.

 

 

Walter Ramos de Arruda

 



Escrito por Jade Dantas às 03:18
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AO VENCEDOR
Gerusa Leal

as batatas sim
mas também
a experiência visceral
de provar o resultado
do que às vezes levou
horas para se tramar

as batatas sim
mas também
a poesia pura
de navegar no sabor
do que não tem
pré-requisitos para a fruição

as batatas sim
mesmo dos recursos
da física da química alquimia
tendo que usar
para chegar ao fado

que se canta com a língua
ora na ponta ora no dorso
ora no fundo da garganta
e o corpo todo apreciando o show
as batatas sim

que é pura arte o que
enfim se aprecia
onde o que acolhe
pelo que envolve é envolvido
e se o ofício é
com arte praticado
bem como as flores
também agrada ao olfato

que assim como as flores
ao olhar encanta
deslizando sobre
dourado azeite
pela lente de uma
taça de vinho entrevistas
às batatas
sim

recheadas com queijo
de noz moscada salpicadas
rodeadas pelo
verde frescor
de crocantes
folhas de alface
a tal dieta
sabe Deus quem inventou

e se tudo num prato
tem início
o que viaja até a boca
em reluzentes talheres
transbordando em
arrotos disfarçados
mãos à boca
olhares maliciosos

pode bem findar
(delícia das delícias)
após os pés se tocando
(sob a mesa)
em boa cama
(para a digestão)

as batatas sim
ao vencedor
ao bon vivant
enfim



Escrito por Jade Dantas às 18:49
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MINHA TIA VAI AO SALÃO DE BELEZA

©Jade Dantas

 

 

Era o feriado bancário que antecede a véspera de ano novo, dia 30 de dezembro.

Minha tia liga para mim: – Preciso ir ao Banco receber meu dinheiro porque quero ir ao cabeleireiro, você sabe, me arrumar para as festas de final de ano. Você pode me levar?

- Tia, podemos ir para você fazer uma retirada mas, receber, não dá. O Banco fechou para balanço. Agora, só no dia 2 de janeiro.

- Ai, que desgraça. Não posso passar o ano deste jeito e estou com pouco disponível! – chorou ela.

- Tenho uma solução. A levo a um salão conhecido. A dona é minha cliente e não fará questão de receber depois.

Levei a minha tia e a deixei por lá. Eu estava ocupadíssima e ela ficou de apanhar um táxi para voltar ao seu apartamento.

Mais tarde, a proprietária do salão me liga aflita:

- A sua tia deseja uma pintura de cabelo mas nada que ofereço lhe agrada! Chamou-me de incompetente. Que faço?

- Nada, querida. Esquente não. Coloque o que tiver aí e exercite sua tranqüilidade. Você não é evangélica? Entenda isso como um teste para sua paciência cristã. – respondi entre risos.

- Não me traga mais essa maluca pra cá – foi a paciente resposta da minha amiga.

Noite de Ano fui à casa da minha tia apanhá-la para o jantar familiar. Estava toda arrumada mas me falou que, àquele salão, nunca mais queria ser levada.

Na semana seguinte fui fazer as unhas e me contaram o desfecho da história.

- Eram umas 21 horas quando, finamente, conseguimos terminar de atender sua tia. A manicure ligou para um taxista conhecido para vir apanhá-la:

- Pode vir buscar uma cliente aqui no salão? Sei que é tarde, mas é uma senhora de idade...

- Ei!!! Senhora de idade, não! – era minha tia.

- Não sou tão idosa assim, não. Está pensando o quê?

- Desculpe, senhora – ao telefone: - Esqueça a idade, moço. É uma senhora que está aqui.

- Senhora, não. Sou senhorita.

- Não é uma Senhora, moço, é uma senhorita. – A moça estava toda confusa e segurando o riso.

Recebi o veredito da dona do salão:

- Por favor, não quero ficar doida também. Nunca mais me traga aqui essa sua tia.

Pensei com meus botões: Também ela não quer mais vir. Imagine, idosa, a minha tia. Jamais.



Escrito por Jade Dantas às 08:55
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        MADRUGADA          

Insone, na madrugada

(me acariciando o olhar)

te recordo voz, boca,

 

o adivinhar de dedos

 no corpo que te queria:

pernas a enrolar nas minhas;

 

que te queria: língua

a me sentir na pele;

 

que te queria: poema

recusando o silêncio;

 

que te queria:

delírio nesta madrugada.

 

Jade Dantas



Escrito por Jade Dantas às 15:20
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CERTEZA

Affonso Romano de Sant’Anna

Quero
a certeza, a certeza
da fera
que dispara,
abate a presa
e banqueteia
sobre a relva ou mesa.

A certeza firme,
embora peregrina,
dos que cegamente rezam
montanha acima.

A certeza
do carrasco
na guilhotina. A certeza
desabalada
da manada
estourando na campina,
a certeza do mau poeta
com suas rimas.
A certeza
além da lógica formal.
A certeza industrial
que liga e desliga
os conceitos
de bem e mal.

Ao contrário
- vacilante e intranqüilo -
sou o caçador cujo gatilho
espanta a caça
antes do tiro,
dançarino de pés mancos
que desaba aos trancos
sobre o palco,
ladrâo
que devolve em dobro
o roubo
       - antes do assalto.

A certeza, sei, é desumana,
é carapaça, couraça, verniz, mentira, máscara
e incapacidade
       - de viver o drama.
Mas, às vezes, gostaria
de ter a estúpida e feliz certeza
do ditador no trono.
A certeza, por certo, causa dano
mas é aspiração confessa
de quem, nietzshiano, se cansa
de ser humano,
          - demasiadamente humano.

 

 

Ilustração: Luis Palma



Escrito por Jade Dantas às 13:20
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AUSENTES ESPAÇOS

©Jade Dantas

 

É apenas num retrato,

ou o fundo da alma

onde guardo a certeza

de que existes?

 

Se fecho os olhos

estás aqui, ausentes espaços

nos sonhos sem limites.

 

Apenas um retrato

que não se perdeu

ou o canto dos pássaros,

nas asas onde os dias

(ainda) renascem?

 

 



Escrito por Jade Dantas às 11:38
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 ROUPINHAS DE BEBÊ

©Jade Dantas

 

“Quando namorava o Adolfo, ele repetia sempre que me achava linda e o quanto me amava: - Eu já disse que te amo? Que te acho linda? – Sentia-me uma princesa.

Cidadezinha do interior, sabe como é, a vida observada por todos. Namoramos durante cinco anos, noivamos mais quatro, enquanto arrumávamos nossa casa.

Então, engravidei.

A cidade inteira comentou. O preconceito prevalece nesses lugares, algo assim volta-se contra a mulher. Passei a ser uma perdida e, mesmo me conhecendo desde criança, ninguém falava mais comigo, nem as amigas mais íntimas.

Adolfo mudou, tornou-se distante, mas foi em frente e casamos.

Porém a vida se transformou. Passei a ser a gorda, a feia.

Enquanto isso, ele só chegava em casa após a meia-noite. Certo dia passei muito mal, febre alta, tive de ser levada ao médico pela sogra, a me olhar com ar de censura. Nem conseguia falar, só chorava.

Ela lhe ligou, respondeu que não poderia me acompanhar. Estava com os amigos no bingo de um bode. Não queria perder o sorteio.

Acho que gastei todas as lágrimas. Hoje, não choro mais por nada.

Aos quatro meses de gravidez, já trabalhando como manicure, saí do trabalho e fui dar uma volta, tentar comprar roupinhas de bebê para iniciar um enxoval. Ao chegar, o encontrei bravo.Gritou que me tinha tirado da rua, que ninguém iria me querer mesmo, que eu era uma perdida andando por aí, certamente procurando machos.

No dia seguinte, quando ele saiu, juntei minhas coisas, comprei a passagem e vim para a casa da minha avó, no Recife. Aqui procurei um serviço de assistência para mulheres, com acompanhamento advocatício, e pedi divórcio.

Não preciso dele, trabalho, sustento-me e à minha filha que passa a semana com minha avó.

Ele nunca nos procurou nem lhe deu absolutamente nada.”

- Confessou a linda moreninha, com um sorriso triste, enquanto fazia as minhas unhas no salão.

 

 



Escrito por Jade Dantas às 11:31
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“Para estar junto
não é preciso estar perto
e sim do lado de dentro"

Leonardo da Vinci

 

 

 

 

 FÁCIL TE AMAR

©Jade Dantas

 

Fácil esquecer de distâncias

e te ver

com a imagem do desejo.

Fácil esquecer.

 

Fácil querer amar teu corpo

e me deixar amar

imersa no abrigo dos teus braços.

Fácil te amar.

 

Porque tua presença é tão real

ainda e o tempo

de te desejar nunca foi

atrelado às palavras.

 

Como eu pensava.

 



Escrito por Jade Dantas às 16:42
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Agora em 17 de outubro foi lançado em Recife um livro no qual participei.

Foi uma coletâvea com 16 escritoras de Pernambuco, intitulada Pimenta Rosa, com textos e poemas eróticos femininos. Ficamos felizes com o acolhimento. O livro esgotou no próprio lançamento e estamos entrando com a segunda edição. Abaixo,  o brinde com Gerusa (à esquerda) e Rosângela (à direita) e o drinque "pimenta rosa".



Escrito por Jade Dantas às 23:44
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POEMA ASSANHADO

©Jade Dantas

 

Viajas pelo meu corpo,

em minha mente adormecida.
E nem sabes das viagens.
Viajas, como fujo te querer acordada.
Viajas por rotas imaginadas
nos sonhos mais ousados.
Deliro, sonhando contigo.
Navego pelo teu corpo,

como em gestos de silêncio,

minhas mãos solitárias.
Viajo em ti, em noites mal dormidas,

com o amor teu
que deixa rastros luminosos
nos sonhos meus.
Acordo para escrever
como rendida a um pecado,

contigo em minha mente,

este poema assanhado.



Escrito por Jade Dantas às 23:23
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NEXO

©Jade Dantas

  

Tentativa de enxergar

do que só se pressente.

 

A sutileza das coisas,

as palavras e todos os olhares.

 

O não compreendido,

o que se esconde.

 

O espanto,

o que está atrás do pranto.

 

O significado  além da alma,

atrás das aparências.

 

O nexo e o sem nexo,

a perplexidade.

 

O que jamais se esgota,

a força do que fica na memória.

 

Tudo que sem razão nenhuma

se mantém intacto, perfeito,

 

talvez porque a razão não entende

de espaços, de vôos e de segredos.

 

Como um amor do passado,

guardado.


Escrito por Jade Dantas às 13:01
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COM A SUA PERMISSÃO
Álvaro A. L. Domingues
 
-- Posso lhe roubar um beijo?
 
"Assim, já não é roubo" -- pensou. "Um contraponto perfeito a  Paulo. Ele teria roubado o beijo com violência. Uma violência ditada pelo desejo".
 
Infelizmente, não parara no desejo. O ciúme. As dores que ainda sentia da última briga antes de se separarem.
 
Diante dela agora estava Roberto. Tímido e romântico. Desejo contido. Amor delicado. Sem violência. Nem a do desejo. Só lhe bateria com uma flor. E pediria antes.
 
-- Não! -- respondeu brava. -- Eu é que vou roubar-lhe um beijo! E mais! Vou arrancar-lhe a roupa, exigir que rasgue a minha, e rolar pelo chão, fazendo amor aqui, no meio do parque!
 
O rapaz olhou-a assustado, enquanto ela iniciava ao estupro, ali mesmo, num domingo ensolarado, diante do olhar atônito de uma centena de passantes.
 
 
Alvaro A. L. Domingues em 12/07/2006
imagem: arte do autor baseada em detalhe do qudro "O beijo" de Di Cavalcanti
__._,_.___


Escrito por Jade Dantas às 18:40
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FIM DE JOGO
(Após Brasil e França em Julho de 2006)
  
Vimos estrelas
Com o ofuscante brilho
Que vaidosamente brilhavam
Apenas diante do espelho
 
Vimos estrelas em pedestais de vidro
Que mesmo com ele em pedaços
Ainda se achavam no alto
 
Vimos a nós mesmos, cumplices
Depositando esperanças no brilho vazio
De estrelas ofuscadas pelo seu próprio brilho
 
©Álvaro A. L. Domingues
 
arte do autor, baseada em imagem "Torcida Brasileira",
obtida na net sem indicação de autoria


Escrito por Jade Dantas às 11:00
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CANÇÃO DA INSÔNIA

©Jade Dantas

 

Eu não queria esta insônia e sim os vôos dos sonhos onde tudo passa a ser possível e aconchegante e o amor não é mais ausência e sim aromas do mar e murmúrio de ondas.

Mas se as portas do sono não se rendem levanto, e venho aguardar o sono, me inclinando sobre as palavras, sempre cúmplices do ato de voar e, para mim, transfigurando a vida tornando-a possível.

Na realidade, gostaria de ir até a praia e brincar de pular ondas, fazer castelos de areia e conversar com o mar como fazia em praia Formosa - que justifica seu nome, na cidadezinha de Cabo Branco, na minha Paraíba.

Melhor permitir transparecer nas estrelas que nascem das palavras os ritmos onde me perco, deixar que sejam asas e espaços maiores que os meus, que sejam música incontida, inundando planícies e abismos, longe das ardências e cobranças do corpo. Perder-me por vales azuis antes percorridos ou tentar me abandonar às melodias que são convite e promessa de novos mares na geografia da vida. Escrevo e envio tímidos barquinhos de papel para sondar a poesia dessas águas de onde me chegam sons de seda e doçuras de nuvens pelo espaço.

Escrito por Jade Dantas às 19:34
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VIDA

Compreender os vacilos de Deus sobre a Terra imensa.
Aceitar o sorriso indesejado,o sonho trocado.
Infringir as regras do óbvio para virar poesia.
Pôr as estrelas no colo e os erros no bolso.
Escutar o eco do outro através do espelho.
Permanecer com os braços abertos, com os corpos grudados.
Dormir de um século pro outro e acordar.


Agostina Akemi Sasaoka



Escrito por Jade Dantas às 16:28
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COLOCANDO A CABEÇA DE LAURO ENTRE AS PERNAS

 Miguel Laf

Com o vestido na mão, procurou onde pendurá-lo. Na maçaneta da porta semi-aberta do grande guarda-roupa estava bem. Foi até ele e o fez. Compenetrada na performance que deslumbraria Lauro, não poderia perceber uma terceira respiração entrecortada e anelante que parou no instante de chegar perto do móvel; menos ainda ao voltar-se na direção de Lauro, tirando o sutiã, conseguiria ver o brilho piscando em olhos escondidos no escuro de seu interior, esbugalhados de terror e ansiedade.
Lauro deitado, impaciente, aguarda Ana agora toda nua. Ela sabe disso e demora a chegar até ele e tomar o pênis entre as mãos. Ele fecha os olhos para sentir melhor os lábios molhados, a boca quente, que com regozijo o faz entrar e sair dela, fazendo "cócegas no céu da boca!, arrancando uma a uma as estrelas de sua constelação". (...) "Ele é meu! Sente, ele conhece sua casinha, entra e sai sem cerimônia, é seu lugar. Meu lugar. Então, o moleque safado é meu..." Sem soltá-lo, ela se desloca em nova posição, colocando a cabeça de Lauro entre as pernas. Agora é ela fechando os olhos e abrindo as narinas ao sentir a língua e os dentes dele festejando o encontro entre sua cavidade molhada e os pequenos lábios que acobertam o clitóris. Lauro sempre soube encontrá-lo, para alegria intensa de Ana. Mais dois olhos piscam somente quando importunados pelo suor caindo em pequenas gotas sobre eles, enevoando a visão que tem do casal. Treme a cama, Ana em cima de Lauro cavalga voluptuosamente, possuindo-o. No guarda-roupa, atrás do vestido pendurado de Ana, olhos molhados vão se fechando lentos, tremura nos lábios, mãos estreitam membro, únicas amigas de muitos anos de festas solitárias. "Você é meu, Lauro! Estou sentindo aquilo! E você? Espera mais um pouco, espera mais, assim, ai! Isso, Laurinho, mexe, mexe assim, meu... nosso. Nossa Senhora de Monte Serrat! Como é... como é bom, me beija... antes que... Laurinho, meu... maldito... benzinho..."
Ana foi despertando aos poucos. Antes de perceber que estava sozinha na cama, ouviu ao longe latidos e a voz de Lauro brincando com Rex. Ainda molhada de suor no corpo todo e de sêmen entre as pernas, espreguiçou-se lembrando do orgasmo e sorriu. Sem abrir os olhos, passou a mão na vagina e a levou ao nariz, cheirou a mistura de odores e não sentiu repugnância; que bom, estava superando aquela bobaria. E nunca entenderia Jandira e seu pavor ao "monstro" habitando entre as pernas dos homens. Ela não, faria tudo de novo! Mas esperaria voltar a São Paulo, a mãe de Lauro podia pensar que... Abriu olhos e boca para bocejar, e então ficou estática ao ver Pedro de pé na sua frente, olhando-a compenetrado com aquele olhar. Instintivamente tentou se cobrir, olhou ao redor, viu o vestido lá longe e a porta escancarada do guarda-roupa, entendeu imediatamente. Pensou em levantar e apanhar o vestido assim mesmo; pensou em chamar Lauro; pensou em gritar para ele sair dali e "por favor" parar de olhá-la daquela maneira; desse jeito pedinte! Ao perceber o vulto debaixo das calças, teve certeza que ele desejava o mesmo que o irmão acabara de fazer. Imaginou se dona Angelina o visse ou soubesse o que se passava, teria um ataque e Lauro morreria de vergonha. Já devia ter, por isso nunca falou dele, de seu desvario, dessa perturbação mental, parecendo criança que nunca cresceu, ficando lá em alguma idade infantil, solitário nessa indefinição entre homem e adolescente. Quem estava na sua frente devia ser o homem, com a coragem e o capricho do adolescente, ambos sofrendo por igual, rejeição e deboche de todos. Ambos implorando... "... atriz. Uma das mais exigentes, das mais cansativas profissões, aquela que exige da mulher o dom de si mesma de uma maneira generosa e por conseguinte custosa." Santa, sempre! Então, com aquela generosidade santista... "que não consegue sepultar a esperança..." abriu os braços e as pernas a ambos. E nunca contou aquilo a ninguém. E nunca mais voltou a Campinas nem comeu raviólis. E nunca mais falou de Pedro, até o dia em que soube da sua morte.



Escrito por Jade Dantas às 16:20
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“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade."

Carlos Drummond de Andrade

 

 

ROBERTO CARLOS

©Jade Dantas

 

Assim iremos nos entender – ele determinou na primeira noite - nada de se apaixonar, prefiro assim. Não somos mais adolescentes, fica até ridículo. Você tem sua vida, eu a minha. Vamos deixar assim, sem cobranças nem perguntas. Apenas quando e enquanto quisermos e pronto.

O conheceu no Orkut, mesma Comunidade, mesmos interesses. Gostavam de ler e do que o outro escrevia. Nunca sabia quando iria vê-lo. Às vezes ele enviava uma mensagem ou ligava ao seu celular. Ela deixava recadinhos na Caixa Postal, nada falando de amor, de acordo com o combinado. Apenas comentários, brincadeiras. Se ele respondesse ou marcasse um encontro, sempre aquela química e cumplicidade, mas nunca sabia quando iria vê-lo novamente. Gostava de fazer amor com ele, ouvi-lo. Conversavam horas sobre os mais variados assuntos, tinham idéias parecidas, brincavam, riam.

Nunca encontrou resposta para seus recadinhos, algo pessoal, nem mesmo no Orkut. Nada de perguntas, era o combinado, mas sentia-se descartável, negligenciada, magoada, embora sabendo que não deveria, que era o esperado. Começou a pensar em não voltar a vê-lo.  Certo dia tomou a decisão. Não existia compromisso algum que os prendesse, não queria mais sentir-se naquele abandono. Nunca mais. E mudou de endereço na Internet, saiu do Orkut.

Ele notou mas não deu importância. Algum probleminha, ela voltaria.

 

(Continua abaixo)



Escrito por Jade Dantas às 16:04
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(Continuação)

 

Depois, começou a entrar diariamente e ela não vinha mais. As mensagens que mandou foram devolvidas. Seu celular não atendia. Deu –se conta de que desconhecia o telefone convencional ou onde morava. Nunca achou que fosse precisar. Era o combinado.

Passou a dormir em casa todas as noites e ficava até a madrugada pesquisando na Internet. A ausência, que no início incomodou, passou a doer. Queria seu cheiro, suas palavras, a voz, a afinidade, o calor. Uma noite, rolava na cama, não conseguia dormir. Pegou um livro dos que ela lhe deixara, tentando driblar a insônia. Nele, um envelope com a conhecida caligrafia. Dentro, um cartão de visitas com endereço e telefone. Atrás, as palavras:

“ Só para dizer que te amo. Demais. Sou fraca, perdoa-me. Adeus. “

Com um nó na garganta, pegou o telefone, nervoso, atrapalhado. Ouviu sua voz: - Alô. E ele: - Sinto tua falta, só agora vi, me dei conta...

A voz lhe faltou – Podes voltar? 

  Amanhã. Cedinho, no teu apartamento.

Passou parte da noite olhando os livros, procurando outros recados. Antes do dia clarear, estava vestido. Saiu para comprar flores e as arrumou pelo apartamento, com  poemas e bilhetinhos, ao som de Roberto Carlos.

 



Escrito por Jade Dantas às 16:01
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O AMOR QUE EU NUNCA FIZ

                          Autor Desconhecido                     

                                                 

O amor que eu nunca fiz, tinha cheiro de pecado. Tinha um monte de carinhos guardados. Tinha início num simples beijo, que terminava envolto em milhões de desejos. O amor que eu nunca fiz, era criança. Era alucinado e acalorado, depois virou adolescente e carente. Mais tarde, um senhor triste e empalhado, escondido dentro do passado.

 

O amor que eu nunca fiz, tinha cheiro de jasmim, perfume de alecrim, a cor da aurora. Teria sido um instante de glória. Talvez o começo de uma história. Chamava por mim. Sempre foi assim... No silêncio da madrugada, em alguma hora encantada... Ele era fantasiado de alegria. Escondido atrás da agonia. Quente e louco. Perturbado e indisciplinado. Era medroso, cheio de angustias. Partículas de tormentos. Cheio de instantes e momentos.

 

O amor que eu nunca fiz, me chamava, me enfeitiçava. Tentava me levar ao final da estrada, mas minha fuga, sempre era alucinada. Fuga de lágrimas, sem palavras. O amor que eu nunca fiz, era gelado, frio e molhado, doce e salgado, fugitivo e enraizado, seco e atormentado, imperfeito e arruinado.

 

O amor que eu nunca fiz . me deixou marcas por toda parte, por cada pedaço do meu corpo. Nos lábios e no rosto. No peito e na emoção. Na saudade e no coração. Fugiu de mim e sempre vai ser assim, porque o amor que eu nunca fiz, riu quando eu não quis. Embora eu saiba, que dentro do seu coração ficou um vácuo, uma ilusão, uma estranha sensação...

 

Mas o amor que eu não fiz, ainda me atormenta. Ainda me alimenta. Ainda não se satisfaz. Ainda não é capaz. O amor que eu nunca fiz, de certa forma eu já fiz, quando olhei nos seus olhos, quando beijei a sua boca, quando fiquei completamente louco. Quando nas noites de verão, peguei na sua mão. Quando o seu corpo encostou no meu e enlouquecido, eu quis o seu.

 

O amor que eu nunca fiz, abriu-me uma porta, iniciou uma história de derrota e de glória, de despedida e partida, de amizade sofrida, de paixão, amor e dor. O amor que eu jamais fiz, foi nosso peso, nossa medida, nosso pesadelo e nossa dívida. Foi nosso desespero e ficou sendo também, o nosso segredo.

 

O amor que eu nunca fiz,  foi justamente,  de todos ... o que eu mais quis!  

 

Como me disseram muito sabiamente: "O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta". Então, como tudo na vida, O Amor que eu nunca fiz, é finito. E, continuando o sábio ciclo da vida, chegam novos amores, novas paixões, novas dores ... até de amores, mas a maior de todas, é a dor da Saudade!

Escrito por Jade Dantas às 15:50
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O TAMANHO DAS PESSOAS

Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...

Uma pessoa é enorme para você, quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena para você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor.

Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto com você. E pequena quando desvia do assunto. Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês. Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade, sem tamanho.

William Sheaskespeare

 



Escrito por Jade Dantas às 15:37
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Morte Lenta 

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca.
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda



Escrito por Jade Dantas às 15:28
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Para Maria da Graça

Paulo Mendes Campos

 

    Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.

 

                                                   (continua abaixo)



Escrito por Jade Dantas às 15:14
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(CONTINUAÇÃO DA MENSAGEM ANTERIOR) 

 

A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?"

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
    A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gato se fosses eu?"
    Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: "A minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria. * Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo" Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. * E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor`.
Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. *Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.



Escrito por Jade Dantas às 15:11
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Manifesto: Esperança
 
Ah!...Barco que distancia...
Leva em teu convés
as minhas noites vazias,
meus ais,
que fizeram de mim
madrugada sem fim... 
 
Foge de mim
feito tantos
e finge viver completamente
a lida que é tua
de navergar.
 
Afasta cada vez mais
e vai diminuindo
com esta razão.
 
Mais tarde,
será só lembrança.
Nem o mar ficará...
Os olhos não estarão lá.
.
 
Marisa Francisco.
 
Mais um poema da excelente Marisa.


Escrito por Jade Dantas às 16:58
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O amigo poeta Nathan de Castro

 

A poesia de Nathan sempre nos chega bela e doce como os cantos dos pássaros e o perfume das flores das Gerais. Vem, acalenta os olhos cansados de violências e se transformam em música de solidão e desejo.

Fiel aos sonetos em quase toda a sua obra, lembra-nos a catedral de acordes da música de Debussy.



Escrito por Jade Dantas às 18:42
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PARA QUE O VERSO VIVA

©Nathan de Castro

 

 

O poeta pintou o céu de doce

E o dia amanheceu sabor morango.

A nevrasca dançou como se fosse

A bailarina flor de novo tango.

 

Das árvores brotaram ventanias,

Vergando a neve e as pedras da colina.

A estrela renovou-se na poesia

E no beijo da lua na campina.

 

O poeta velava o mundo em transe,

E a morte era apenas um detalhe

Nas mãos de uma criança sorridente.

 

Humanos não puderam ver o lance

A vida pôs no peito a flor-saudade,

Para que o verso viva eternamente!

 

 



Escrito por Jade Dantas às 18:19
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